
Um relatório da Polícia Federal, tornado público após a retirada do sigilo, reuniu novos detalhes sobre a relação entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O documento reúne mensagens extraídas do celular de Vorcaro, registros de encontros, documentos relacionados a contratos e referências a integrantes da cúpula da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR).
A análise foi realizada por determinação do ministro André Mendonça, relator das investigações envolvendo o Banco Master. Entre os dados recuperados está um contato identificado no aparelho de Vorcaro como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
Segundo a PF, parte das mensagens era produzida no bloco de notas do celular, transformada em captura de tela e enviada pelo WhatsApp com visualização única. A perícia conseguiu recuperar conteúdos enviados por Vorcaro, mas não teve acesso a todas as respostas do interlocutor.
O relatório faz distinção entre trechos nos quais os investigadores atribuem diretamente a interlocução a Moraes e outros em que a identificação do destinatário é baseada em elementos da investigação. O documento também não comprova que todas as solicitações feitas pelo banqueiro tenham sido atendidas.
Contatos se intensificaram antes da prisão
A investigação identificou pelo menos seis encontros entre Vorcaro e Moraes, com uma aproximação que teria começado no final de 2023. Segundo o relatório, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria teria fornecido ao banqueiro um número atribuído ao magistrado
As comunicações continuaram enquanto o Banco Master enfrentava dificuldades e as investigações contra Vorcaro avançavam.
Dois dias antes de ser preso, o banqueiro teria enviado uma mensagem perguntando se deveria estar fora na segunda-feira. No dia da prisão, também teria questionado sobre possíveis novidades e se alguma medida havia sido obtida ou “bloqueada”.
Vorcaro acabou preso em novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para viajar em um avião particular com destino a Dubai.
Em outra comunicação analisada pela PF, o banqueiro pediu ao interlocutor que reforçasse uma atuação junto a “Andrei e Paulo”. Os investigadores associaram as referências a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República. O relatório, entretanto, não comprova que os dois tenham tomado alguma providência em favor de Vorcaro.
Contrato com escritório ligado à família de Moraes
O relatório também aborda a relação comercial entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, que tem entre suas sócias Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes.
Um dos contratos identificados pela PF tinha valor próximo de R$ 131 milhões e foi firmado no início de 2024. Em uma minuta encontrada no celular de Vorcaro, os metadados indicaram que a última alteração havia sido realizada por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
O escritório informou que Moraes foi consultado como marido da sócia-diretora para verificar possíveis impedimentos jurídicos relacionados à contratação, inclusive a existência de processos envolvendo o Banco Master que pudessem estar sob sua relatoria.
O contrato permaneceu vigente até a liquidação do banco, em novembro de 2025. A PF também encontrou mensagens nas quais Vorcaro demonstrava preocupação com pagamentos à banca, incluindo uma cobrança relacionada a R$ 3,4 milhões.
Outro documento localizado pelos investigadores tratava de uma proposta estimada em R$ 50 milhões. O projeto previa R$ 40 milhões em ativos relacionados a um avião Legacy 650 e um helicóptero, além de R$ 10 milhões para despesas de voos.
Segundo o escritório, essa segunda proposta não foi aceita e não houve assinatura de um novo contrato. A banca afirma que somente o acordo original foi efetivamente firmado.
Investigação não teve acesso a toda a conversa
A forma utilizada por Vorcaro para enviar algumas mensagens acabou limitando a reconstrução completa dos diálogos. A perícia recuperou dezenas de conteúdos enviados pelo banqueiro, mas parte das respostas atribuídas ao interlocutor não estava disponível no aparelho analisado.
Também foi divulgado nesta quarta-feira (2) que Moraes teria trocado celular, chip e número telefônico em fevereiro de 2026, período em que a PF já examinava aparelhos apreendidos de Vorcaro. A informação, isoladamente, não estabelece relação entre a troca e as investigações.
Moraes já negou anteriormente ter recebido algumas mensagens que lhe foram atribuídas e classificou como “ilação mentirosa” determinadas associações de seu nome aos diálogos.
Agora, o material está sob análise do Supremo. André Mendonça pretende levar ao plenário a discussão sobre a continuidade das apurações. A Procuradoria-Geral da República, por outro lado, questiona a forma como o relatório foi elaborado e defende que o documento seja considerado nulo.
Fonte: Conexão Politica
Por - Sanny Fernanda Sá / Imprensananet.com